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Saramagueando: olhar, ver, reparar...

"Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara."

Saramagueando: olhar, ver, reparar...

"Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara."

Para começar, gosto de mulheres

BibCamilo, 25.11.21

 

 

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Modern Sexy Black Dress Woman Orange. Impressão em tela

 

Para começar, gosto das mulheres. Acho que elas são mais fortes, mais sensíveis e que têm mais bom senso que os homens. Nem todas as mulheres do mundo são assim, mas digamos que é mais fácil encontrar qualidades humanas nelas do que no género masculino. Todos os poderes políticos, económicos, militares são assunto de homens. Durante séculos, a mulher teve de pedir autorização ao seu marido ou ao seu pai para fazer fosse o que fosse. Como é que pudemos viver assim tanto tempo condenando metade da humanidade à subordinação e à humilhação?

Saramago, José (2007). In L'Orient le Jour 

 

 

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Portugal, História e Cultura

BibCamilo, 21.11.21

 

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"Que é, ou quem é Portugal? Uma Cultura? Uma História? Um Adormecido Inquieto?" [...] "Da História de Portugal sempre nos dá vontade de perguntar: porquê? Da cultura portuguesa: para quê? De Portugal, ele próprio: para quando? ou: até quando?"

Saramago, José (1998). Cadernos de Lanzarote. Lisboa, Círculo de Leitores, vol. III e IV, p. 49.

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Portugal, uma espécie de dor

BibCamilo, 21.11.21

 

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"Bom, o tema forte [da minha obra] será Portugal, uma vez que dele falo e falo sempre com uma espécie de dor. Coisa que também não é inédita na relação entre os escritores portugueses e a nossa terra, traduzindo uma espécie de desespero por não podermos ou não querermos sair desta espécie de mesquinhez que nos caracteriza em parte [...]."

Reis, Carlos (1998). Diálogos com Saramago. Lisboa: Caminho, p. 145

 

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Memória & Ficção

BibCamilo, 21.11.21

 

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"Quem tenha lido com alguma atenção os meus livros sabe que, para além das histórias que eles vão contando, o que ali há é um contínuo trabalho sobre os materiais da memória, ou, para dizê-lo com mais precisão, sobre a memória que vou tendo daquilo que, no passado, já foi memória sucessivamente acrescentada e reorganizada, à procura de uma coerência própria em cada momento seu e meu. Talvez essa desejada coerência só comece a desejar um sentimento quando nos aproximamos do fim da vida e a memória se nos apresenta como um continente a redescobrir." 

Saramago, José (1998). Cadernos de Lanzarote. Lisboa: Círculo de Leitores, vol. III, pp. 18-19

 

 

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Sobre a pontuação peculiar

BibCamilo, 20.11.21

 

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Data de lançamento: 29.11.2021 | Porto Editora

 

“Como passei das crónicas ao romance? Não sei. Agora, mudança? Eu acho que não... Eu acho que me encontrei num certo momento da vida e provavelmente encontrei-me no Levantado do Chão, que é um livro que foi escrito daquela maneira pelo facto de eu ter estado no Alentejo e de ter ouvido contar histórias. Estive no Alentejo em 1976 e saí de lá com o livro todo arrumado na cabeça. O livro foi escrito três anos depois, sendo certo que escrevi o Manual de Pintura e Caligrafia e Objecto Quase provavelmente (há algum exagero nisto, mas apetece-me dizê-lo) porque não sabia como havia de escrever o Levantado do Chão. E a prova de que eu não sabia como havia de escrever o Levantado do Chão encontra-se talvez no meio dos papéis que tenho para aí, onde é possível ver o momento em que ele nasceu.

Acabei por me decidir a escrever o livro, sabia o que queria contar, mas aquilo não me agradava, havia uma resistência em escrever o livro; mas comecei a escrevê-lo, fui até à página vinte e tal e de repente, sem reflectir, sem pensar, sem planear, sem ter posto de um lado os prós e do outro lado os contras, achei-me a escrever como hoje escrevo."

Reis, Carlos (1998). Diálogos com Saramago. Lisboa: Caminho, p. 28

 

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Os meus sinais de pontuação

BibCamilo, 16.10.21

 

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Carlos Reis: O que torna a sua pontuação surpreendente é que ela continua a existir, só que é diferente daquilo que convencionalmente se esperaria.

José Saramago: Aí direi que os meus sinais de pontuação, quer dizer, a vírgula e o ponto final [...] não são sinais de pontuação. São sinais de pausa, no sentido musical, quer dizer: aqui o leitor faz uma pausa breve, aqui faz uma pausa mais longa. Quando aconteceu algumas pessoas dizerem que não entendiam nada, a minha única resposta, nessa altura, já há muitos anos - em 1980, quando o Levantado do Chão saiu -, foi: leiam uma página ou duas em voz alta. E depois acontecia as pessoas dizerem: "Já percebi o que é que tu queres". É fácil. O leitor há-de ouvir, dentro da sua cabeça (o leitor não tem que andar lá em casa a chatear a família lendo o Memorial do Convento ou O Evangelho Segundo Jesus Cristo em voz alta), a voz que "fala". Tal como eu, quando estou a escrever, necessito estar a ouvir na minha cabeça a voz que "fala". É por isso que começar um livro é para mim tão complicado; porque, enquanto eu não sentir que aquele senhor já está a "falar", que não está simplesmente a escrever o livro, eu posso empurrá-lo e fazer avançar, mas mais cedo ou mais tarde tenho que parar porque tenho que reconsiderar tudo aquilo que fiz.

Reis, Carlos (1998). Diálogos com Saramago. Lisboa: Caminho, pp. 101-102

 

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Dificílimo é o ato de escrever

BibCamilo, 16.10.21

 

 

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“Dificílimo acto é o de escrever, responsabilidade das maiores, basta pensar no extenuante trabalho que será dispor por ordem temporal os acontecimentos, primeiro este, depois aquele, ou, se tal mais convém às necessidades do efeito, o sucesso de hoje posto antes do episódio de ontem, e outras não menos arriscadas acrobacias [...]”.

Saramago, José (1986). A Jangada de Pedra. Lisboa: Caminho, p. 14

 

 

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Diálogo com Borges: o jogo de referências, citações e falsas citações

BibCamilo, 16.10.21

 

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Imagem: Mise-en-abyme, de Crisp Linens

 

"Eu diria que a epígrafe me ajuda, no sentido de que ela é já uma proposta: é como se a epígrafe já me apresentasse o campo de trabalho onde depois a narrativa se vai desenvolver. No caso do Ensaio sobre a Cegueira, isso é claríssimo: "Se podes olhar vê, se podes ver repara". Ou seja: caro leitor, dê atenção àquilo que eu lhe vou contar. Tirando o caso d' O Ano da Morte de Ricardo Reis, em que as citações não são minhas, normalmente aparecem-me de um Livro dos Conselhos, inexistente, de facto. Mas essa é uma pecha antiga, porque a verdade é que, na Jangada de Pedra, há duas citações, uma de Estrabão, que diz «A Ibéria tem a forma duma pele de boi» e depois aparece por baixo uma outra citação de um anónimo português, que diz «A Península Ibérica tem a forma duma jangada». Se calhar tudo isto é um pouco borgiano, suponho eu, com todo o jogo de referências e de citações e de falsas citações, até. Mas já na primeira edição d' A Bagagem do Viajante, publicada em 1973, há uma epígrafe que diz assim: «É muito raro poder dizer-se que uma viagem é perfeita antes de acabar, mas acontece»; do Manual do Viajante. Portanto esta tineta das epígrafes, retiradas de livros que não existem, é do tempo em que eu não sabia muito bem ainda o que é que eu iria ser...

Reis, Carlos (1998). Diálogos com Saramago. Lisboa: Caminho, pp. 89-90

 

 

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O melhor que às vezes os livros têm são as epígrafes

BibCamilo, 16.10.21

 

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"Contra mim falo: o melhor que às vezes os livros têm são as epígrafes que lhes servem de credencial e carta de rumos. Objecto Quase [livro de contos], por exemplo, ficaria perfeito se só contivesse a página que leva a citação de Marx e Engels. Lamentavelmente a crítica salta por cima dessas excelências e vai aplicar as suas lupas e os seus escalpelos ao menos merecedor que vem depois."

Saramago, José (1998). Cadernos de Lanzarote III. Lisboa: Caminho, p. 19

 

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Escrever para compreender

BibCamilo, 25.09.21

 

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“De qualquer um dos meus romances creio que se pode demonstrar que foram escritos porque o autor deles tem uma quantas questões a resolver que só pode resolver (ou tentar aproximar-se da resolução delas) escrevendo um livro. Não creio que haja nem venha a haver nenhum livro meu (embora isso também não fosse nenhuma vergonha, evidentemente) do qual as pessoas digam: «Mas porque é que ele escreveu isto?» Não é que eu ache que os livros que escrevi são livros que não existiam (todo o livro que se escreve é porque não existia antes, já sabemos).

Não: o que há ali são livros que eu, como cidadão, como pessoa que sou, diante do tempo, diante da morte, diante do amor, diante da ideia de um Deus existente ou não, diante de coisas que são fundamentais (e que continuarão a ser fundamentais), procuro colocar ali o conjunto de dúvidas, de inquietações, de interrogações que me acompanham e que podem ser de carácter tão imediatamente político (é o caso d' A Jangada de Pedra) como podem ser interrogações de outro tipo.”

REIS, Carlos (1998). Diálogos com Saramago, Lisboa: Caminho, pp. 30-31.

 

 

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