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Saramagueando: olhar, ver, reparar...

"Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara."

Saramagueando: olhar, ver, reparar...

"Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara."

Sobre o centenário

BibCamilo, 25.09.21

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Assinala-se a 16 de novembro de 2022 o centenário de José Saramago. Tal como em circunstâncias semelhantes acontece com outros grandes vultos, a efeméride constituirá uma oportunidade privilegiada para a consolidação da presença do escritor na história cultural e literária, em Portugal e no estrangeiro. E também para se prestar homenagem à sua figura como cidadão.

Aquela consolidação envolve a revisitação de uma atividade literária e cívica que marcou a cena portuguesa e internacional durante décadas, mas que vai além disso; inclui-se nela a afirmação de uma obra com uma vitalidade inquestionável, bem como a acentuação do pensamento social, político e ético de José Saramago. E também o que desse pensamento ressoa no nosso presente. A Carta dos Deveres e das Obrigações dos Seres Humanos sintetiza, pelo seu espírito e pelos seus efeitos, muito do legado saramaguiano.

A atribuição do Prémio Nobel da Literatura confirmou uma consagração internacional que fez de José Saramago uma personalidade com grande significado, para além das fronteiras de Portugal. Assim, Saramago define-se hoje como um “escritor do mundo”, com presença expressiva em manifestações artísticas, educativas, políticas e sociais com vasta disseminação e efeitos variados. Incluem-se nesses efeitos os que decorrem da presença da obra saramaguiana no nosso sistema de ensino e na difusão da língua e da cultura portuguesas no mundo.

Em articulação com outras entidades, a Fundação José Saramago está a preparar um amplo programa de evocação do centenário, distribuído por quatro eixos: o eixo da biografia, dando atenção ao trajeto biográfico, formativo e cívico do escritor, em relação com a sua produção literária; o eixo da leitura, entendendo-se o centenário do escritor como momento adequado para se revigorar a leitura da sua obra e também para conquistar novos leitores, desejavelmente jovens; terceiro, o eixo das publicações, tanto no plano das obras evocativas, de divulgação ou de extensão transliterária, como no das edições ilustradas, com iconografia do escritor e da sua obra; o eixo das reuniões académicas, uma vez que José Saramago é um escritor com forte presença na academia, em Portugal e no estrangeiro, motivando reuniões científicas em diferentes locais.

Pode antecipar-se desde já que o centenário de José Saramago desencadeará iniciativas de entidades muito diversas, em Portugal e noutras partes do mundo. Nesse contexto, a Fundação José Saramago (FJS) assumirá o papel central que lhe cabe, respeitando, evidentemente, a autonomia dos atores e das instituições que venham a dar contributos próprios ao centenário.

Carlos Reis, Comissário para o Centenário de José Saramago, fevereiro de 2021

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Escrever para compreender

BibCamilo, 25.09.21

 

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“De qualquer um dos meus romances creio que se pode demonstrar que foram escritos porque o autor deles tem uma quantas questões a resolver que só pode resolver (ou tentar aproximar-se da resolução delas) escrevendo um livro. Não creio que haja nem venha a haver nenhum livro meu (embora isso também não fosse nenhuma vergonha, evidentemente) do qual as pessoas digam: «Mas porque é que ele escreveu isto?» Não é que eu ache que os livros que escrevi são livros que não existiam (todo o livro que se escreve é porque não existia antes, já sabemos).

Não: o que há ali são livros que eu, como cidadão, como pessoa que sou, diante do tempo, diante da morte, diante do amor, diante da ideia de um Deus existente ou não, diante de coisas que são fundamentais (e que continuarão a ser fundamentais), procuro colocar ali o conjunto de dúvidas, de inquietações, de interrogações que me acompanham e que podem ser de carácter tão imediatamente político (é o caso d' A Jangada de Pedra) como podem ser interrogações de outro tipo.”

REIS, Carlos (1998). Diálogos com Saramago, Lisboa: Caminho, pp. 30-31.

 

 

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A ficção como lugar natural do "não" e do "talvez"

BibCamilo, 25.09.21

 

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"Afinal, é apenas um romance entre os romances, não tem que preocupar-se mais com introduzir nele o que nele já se encontra [o "Não" ou o "infinito Talvez"], porque livros destes, as ficções que contam, fazem-se, todos e todas, com uma continuada dúvida, com um afirmar reticente, sobretudo a inquietação de saber que nada é verdade e ser preciso fingir que o é, ao menos por um tempo, até não se poder resistir à evidência inapagável da mudança, então vai-se ao tempo que passou, que só ele é verdadeiramente tempo, e tenta-se reconstituir o momento que não soubemos reconhecer, que passava enquanto reconstituíamos outro, e assim por diante, momento após momento, todo o romance é isso, desespero, intento frustrado de que o passado não seja coisa definitivamente perdida. Só não se acabou ainda de averiguar se é o romance que impede o homem de esquecer-se, ou se é a impossibilidade do esquecimento que o leva a escrever romances."

Saramago, José (1999). O cerco de Lisboa. Lisboa: Caminha, pp. 56-57.

 

 

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Saramagueando

BibCamilo, 25.09.21

 

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O Centenário de José Saramago, escritor consagrado internacionalmente através do Prémio Nobel da Literatura da literatura de 1998, vai ser comemorado a partir de 16 de novembro de 2021, através de uma diversidade de atores e de expressões intelectuais e artísticas.

A Escola Secundária Camilo Castelo Branco, Vila Real, associa-se às comemorações do Centenário, promovendo um conjunto de eventos e atividades em torno de Saramago, o homem e a obra, que divulgará neste blogue.

"Saramagueando: olhar, ver, reparar..." pretende fundamentalmente celebrar uma obra (e um homem) que recusa a perspetiva única, o sentido monolítico, as verdades absolutas e se apresenta como espaço privilegiado de problematização e de dúvida - até porque "É pela dúvida que começamos a emendar as desordens do mundo", afirma Saramago.

"Pôr tudo em dúvida. É esta a atitude político-moral do autor e, ao mesmo tempo, a sua perspectiva literária sob a qual o realismo de Saramago tanto se revolta contra as continuidades da história portuguesa como também evidencia as suas rupturas." (Thomas, 1998:49).

 

Ver e não ver são imagens recorrentes na obra saramaguiana. Para cultivar o ceticismo sem perder a esperança, é preciso saber ver, que o mesmo é dizer, é preciso discutir, opinar, argumentar, ajuizar. Este tema é levado ao limite em Ensaio sobre a Cegueira, onde o que está em causa (mais do que a dicotomia ver/não ver) é o não saber ver ou o não querer ver. A epígrafe escolhida para este romance é assaz esclarecedora:

 

                                                “Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara”.

 

Saramagueando, vamos fazer desta epígrafe o nosso lema!

 

Referências:

SARAMAGO, José (2015). Ensaio sobre a cegueira. Lisboa: Caminho.

THOMAS, Christian (1998), "Jangada das ficções – José Saramago recebe o Prémio Nobel da Literatura", Revista Camões, Instituto Camões, Lisboa, pp. 47-49.

 

 

 

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Um homem chamado Saramago

BibCamilo, 25.09.21

 

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“O que eu quero é que se note nos meus livros que passou por este mundo (valha isso o que valer, atenção!) um homem que se chamou José Saramago. Quero que isso se saiba, na leitura dos meus livros; desejo que a leitura dos meus livros não seja a de uns quantos romances acrescentados à literatura, mas que neles se perceba o sinal de uma pessoa.”

Reis, Carlos (1998). Diálogos com Saramago. Lisboa: Caminho, p.71

 

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